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CUIABÁ

Raul Fortes

O que a cultura leva adiante

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Setembro parece ter decidido lembrar ao Brasil o quanto a cultura ainda é capaz de nos colocar em movimento. Grandes palcos receberam artistas e multidões, livros levaram milhares de pessoas a uma bienal, o cinema brasileiro ocupa telas, salas e debates, enquanto manifestações que atravessam gerações continuam encontrando espaço para existir. Em diferentes linguagens e dimensões, a arte segue cumprindo aquilo que sempre fez de melhor, criando encontros.

O Rock in Rio nasceu em 1985 e ajudou a colocar definitivamente o Brasil na rota dos grandes espetáculos internacionais. Mais de quatro décadas depois, continua sendo um daqueles acontecimentos capazes de fazer a música ocupar conversas, ruas e telas, reunindo diferentes gerações diante de seus palcos.

Em São Paulo, outro tipo de encontro chamou atenção. A Bienal Internacional do Livro encerrou sua edição de 2026 com recorde de público e 760 mil visitantes. Num tempo em que tantas vezes se anuncia a substituição do papel pelas telas, ver tanta gente procurando livros, autores e histórias merece ser celebrado. Especialmente para quem, como eu, continua acreditando no livro físico, no prazer de folhear páginas e na importância de não abandonar aquilo que ajudou a construir nossa história.

Em Brasília, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro chega à sua 59ª edição reafirmando a importância de um espaço dedicado ao nosso audiovisual. Neste ano, foram quase 2 mil filmes inscritos, um recorde para o festival, que reúne mais de 70 produções em sua programação. Música, literatura e cinema mostram um país que continua querendo cantar, ler, assistir, criar e encontrar o outro por meio da arte.

Quando trazemos esse olhar para Mato Grosso, os últimos dias também nos deram bons motivos para falar de cultura, memória e futuro. A Academia Mato-Grossense de Letras completou 105 anos e abriu as portas da Casa Barão para uma programação que aproximou literatura, memória, cultura urbana, tecnologia e diferentes gerações. Uma instituição centenária que reconhece sua história e procura caminhos para fazer com que esse patrimônio continue chegando a novos públicos.

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O Sesc também acaba de completar 80 anos no Brasil, numa trajetória ligada à educação, à saúde, à cultura, ao lazer, à assistência e à formação de pessoas. Em Mato Grosso, essa presença ganha outra dimensão com o trabalho desenvolvido pelo Polo Socioambiental Sesc Pantanal, que reúne ações de conservação da biodiversidade, educação ambiental, pesquisa e desenvolvimento das comunidades. Suas áreas naturais protegidas alcançam cerca de 117 mil hectares entre Pantanal e Cerrado, numa atuação que ajuda a cuidar de um dos mais importantes patrimônios naturais do país. Preservar esses territórios é também cuidar da nossa identidade, da nossa memória e daquilo que entregaremos às próximas gerações.

Minha relação com o Sesc vem de muito tempo. No início da minha trajetória profissional na música, estive muito presente no Sesc Arsenal, onde realizei quase uma centena de apresentações e estive à frente de alguns projetos. Instalado em um prédio que também guarda parte importante da história de Cuiabá, o Arsenal se consolidou como um dos principais polos culturais de Mato Grosso, reunindo música, teatro, cinema, literatura, artes visuais, formação e convivência. Depois vieram outros palcos do Sesc em Mato Grosso e pelo Brasil. Falar dessas oito décadas passa, portanto, por algumas das minhas próprias lembranças e por uma instituição que, de diferentes maneiras, também esteve presente na minha caminhada.

No último fim de semana, essa história ganhou mais um capítulo. Estive no Sesc Poconé, uma das unidades que integram o Polo Socioambiental Sesc Pantanal, para uma apresentação ao lado de Pescuma dentro das comemorações dos 80 anos do Sesc. Antes de subir ao palco, assisti à Orquestra Jovem Sesc Pantanal, com jovens fazendo música com estudo, dedicação, sensibilidade e entrega. Para quem acredita na educação musical como instrumento de formação humana, é sempre bonito ver uma nova geração descobrindo instrumentos, repertórios e possibilidades por meio da música.

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Também assisti aos Mascarados de Poconé, manifestação cultural de uma força enorme e profundamente ligada à identidade poconeana e pantaneira. Suas máscaras, roupas, movimentos e música carregam uma tradição construída pelo encontro de diferentes matrizes culturais. Diante dos nossos olhos, a memória deixa de ser somente lembrança e continua sendo presença.

Depois foi a nossa vez. Subi ao palco com Pescuma e tudo aquilo pareceu conversar. Os jovens de uma orquestra apontando para o futuro, os Mascarados trazendo uma tradição que atravessa gerações e nós cantando músicas que também ajudam a contar quem somos. E algumas noites, por razões que nem sempre precisam ser ditas, acabam guardando mais significado do que aquilo que o palco consegue mostrar. Tudo isso dentro de uma instituição que chegava aos 80 anos criando espaço para diferentes expressões da nossa cultura e, no Pantanal, ajudando também a proteger o território onde parte dessa cultura nasceu e continua viva.

Uma Academia com 105 anos falando de futuro, um Sesc com 80 anos formando jovens músicos e preservando parte do nosso patrimônio natural, uma tradição pantaneira atravessando gerações, um festival de cinema chegando perto das seis décadas, uma bienal levando centenas de milhares de pessoas aos livros e grandes palcos reunindo multidões pela música mostram que os números impressionam, mas cultura nunca foi somente uma questão de números.

Cultura é permanência em movimento. É aquilo que recebemos de quem veio antes, transformamos com aquilo que somos e entregamos a quem vem depois. Naquela noite em Poconé, antes de cantar, pude reconhecer no mesmo espaço jovens músicos, uma tradição pantaneira, histórias que começaram muito antes de nós e outras que estão apenas começando. No fim das contas, a cultura permanece viva quando encontra gente disposta a recebê-la, vivê-la e entregá-la adiante.

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Dick Vigarista: fake news e as armadilhas da corrida eleitoral

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Uma analogia às eleições de 2026

Quem assistiu à Corrida Maluca dificilmente esqueceu Dick Vigarista e a risada sarcástica de seu fiel companheiro, Muttley, quando algum plano começava a fracassar.

O desenho apresentava uma competição automobilística fora dos padrões. Eram onze carros, conduzidos por personagens excêntricos, enfrentando diversos percursos em busca da vitória.

Ao volante do carro número 00 estava Dick Vigarista. Inteligente, inventivo e estrategista, tinha habilidade para criar mecanismos e elaborar planos para as situações mais improváveis.

Mas havia uma característica que definia sua participação na corrida: não queria apenas chegar primeiro. Queria impedir que os outros chegassem.

E aí estava seu grande problema.

Dick Vigarista tinha condições de vencer. Muitas vezes estava à frente e bastava continuar correndo. Mas Dick era Dick. Parava, desviava do percurso, preparava uma armadilha, criava um obstáculo. E, enquanto arquitetava uma forma de fazer os outros perderem, deixava escapar a sua vitória.

Quando crianças, aquilo era apenas diversão. Anos depois, enxergamos a cena de outra maneira.

O personagem desperdiçava inteligência, tempo e criatividade tentando fazer o outro perder, quando poderia utilizar seu talento para vencer.

Décadas depois, essa velha corrida permite uma analogia bastante atual.

Em 2026, o Brasil vive novamente uma grande disputa eleitoral. Eleições não são desenhos animados. As consequências são reais e interferem na vida da população.

Mas a metáfora de Dick Vigarista permite uma pergunta:

quanto da energia utilizada para atacar um adversário poderia ser empregada para mostrar ao eleitor o que o candidato tem a oferecer?

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Memes, jingles, vídeos, redes sociais e ferramentas de inteligência artificial oferecem inúmeras possibilidades para apresentar ideias, projetos e propostas.

Esses recursos também podem ser utilizados para ridicularizar adversários, promover ataques ou espalhar informações falsas. O candidato deixa de conduzir sua corrida para tentar controlar a do outro.

No fim das contas, bastava a Dick cruzar a linha de chegada. Na vida real, quem conduz a comunicação de uma campanha pode cair na mesma armadilha: concentrar esforços em atacar o adversário, em vez de mostrar ao eleitor as qualidades, ideias e propostas de seu candidato.

Quando a armadilha vira fake news

As armadilhas de Dick Vigarista eram feitas de buracos, desvios e placas trocadas. Hoje, recursos tecnológicos permitem criar imagens, reproduzir vozes e produzir vídeos com aparência de realidade.

E há uma diferença fundamental:

 

Nós sabíamos onde estavam as armadilhas de Dick Vigarista. No processo eleitoral, nem sempre sabemos quando existe uma armadilha diante de nós.

Embora a televisão ainda tenha papel relevante na divulgação das candidaturas, as redes sociais ganharam espaço pela velocidade com que as informações circulam e pelo alcance dos conteúdos. Esses ambientes também favorecem a propagação de notícias falsas e a atuação de bots, capazes de simular usuários e ampliar artificialmente determinadas mensagens.

Diante desse cenário, o TSE estabeleceu regras para o uso da inteligência artificial nas campanhas eleitorais, incluindo a identificação de conteúdos gerados ou manipulados por IA, a proibição de deepfakes para favorecer ou prejudicar candidaturas e obrigações atribuídas aos provedores de internet.

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O preço da credibilidade

Há ainda um preço que nenhuma estratégia eleitoral recupera facilmente: a confiança.

Depois de tantas armadilhas, bastava Dick Vigarista aparecer para que o espectador esperasse a próxima trapaça.

Na política, o efeito pode ser semelhante. É possível conquistar votos e vencer uma eleição, mas nenhuma urna entrega credibilidade.

O voto confere o mandato. A confiança precisa ser construída.

E a mentira usada para retirar a credibilidade do adversário pode terminar retirando a credibilidade de quem a utiliza.

A corrida de 2026

As eleições podem ser disputadas com criatividade, tecnologia, bons memes, bons jingles, confronto de ideias e, sobretudo, propostas.

Talvez a velha Corrida Maluca tenha deixado uma reflexão surpreendentemente atual:

quem passa tempo demais tentando convencer o eleitor de que o outro não merece vencer pode esquecer de demonstrar por que ele merece ser eleito.

Dick Vigarista tinha inteligência, criatividade e estratégia.

Muitas vezes, só precisava continuar correndo.

Na corrida eleitoral, não é preciso sabotar o carro dos adversários. É preciso mostrar ao eleitor o seu caminho, as suas propostas e deixar que ele escolha quem deve cruzar a linha de chegada.

A pergunta que fica para a corrida eleitoral de 2026 é: quantos candidatos e marqueteiros perceberão isso a tempo?

ANDRÉA MARIA ZATTAR
Advogada trabalhista e previdenciarista, membro da Associação Brasileira das Mulheres de Carreira Jurídica – ABMCJ; articulista e ativista em causas sociais.

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