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Raul Fortes

Gente que sabe cuidar

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Sempre me impressionou a capacidade humana de aprender com a natureza. Antes mesmo de transformar o que encontra pelo caminho, o ser humano precisou observar. Entender o tempo das águas, reconhecer uma madeira, acompanhar o comportamento dos animais, descobrir os ciclos da terra. Muito do que chamamos de conhecimento começou assim, com alguém disposto a prestar atenção.

Em Mato Grosso, essa relação está diante dos nossos olhos. Pantanal, Cerrado e Amazônia dividem o território e revelam diferentes formas de vida, paisagens e relações construídas entre o ser humano e a natureza. O Pantanal, reconhecido como Patrimônio Mundial Natural, é uma das expressões dessa riqueza, assim como o Cerrado e a Amazônia guardam biodiversidade, histórias e conhecimentos próprios. A grandeza desses lugares não está somente na paisagem que encanta quem chega. Está também nos saberes construídos ao redor dela, nas comunidades, nas tradições e nas diferentes maneiras encontradas pelo ser humano para conviver com ambientes tão extraordinários.

A cultura ajuda a contar essa história. A canoa pantaneira nasceu da necessidade de atravessar as águas e se transformou também em memória e saber tradicional. A viola de cocho encontrou na madeira outro destino e fez dela música, acompanhando manifestações que atravessam gerações. Uma segue pelos rios, a outra pelas melodias. As duas carregam a habilidade de seres humanos que aprenderam a criar sem perder a relação com o lugar onde vivem.

São essas habilidades humanas que também me encantam. Gente capaz de reconhecer aquilo que muitos de nós não perceberíamos. Uma mudança na vegetação, um comportamento diferente de uma espécie, os sinais deixados pela água, pelo fogo, pelo solo e pelo tempo. Existe um universo inteiro diante de nós e existem pessoas que dedicam a vida a compreendê-lo.

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Biólogos, pesquisadores, engenheiros, técnicos, educadores ambientais e culturais, brigadistas, servidores, gestores, guias e tantos outros profissionais fazem parte dessa história. Alguns estão no campo, outros nas universidades, nas instituições, nas unidades de conservação, nos laboratórios ou junto às comunidades. Estudam, pesquisam, ensinam, recuperam, orientam, planejam e ajudam a tomar decisões que interferem diretamente no futuro de lugares que pertencem a todos nós.

Tenho uma admiração especial por quem escolheu esses caminhos. São seres humanos espetaculares, com habilidades incríveis, que transformaram conhecimento em responsabilidade. Pessoas que entenderam que proteger a natureza e preservar a cultura não significam apenas contemplar suas belezas. É preciso conhecê-las, estudá-las, respeitar seus valores e trabalhar para que aquilo que recebemos também possa ser encontrado pelas próximas gerações.

A educação ocupa um lugar fundamental nesse processo. Educadores ambientais e culturais ajudam a construir novas formas de relação com aquilo que nos cerca. Quando alguém compartilha conhecimento sobre um rio, uma espécie, uma floresta, uma música, uma tradição ou um saber popular, também contribui para que outras pessoas reconheçam o valor do que receberam. Conhecer aproxima e desperta pertencimento. Educação, cultura e consciência ambiental se encontram justamente nesse ponto, na capacidade de formar pessoas mais atentas ao patrimônio natural e cultural que atravessa gerações.

A arte chega por outro caminho e encontra o mesmo destino. Uma fotografia pode nos aproximar de uma paisagem. O cinema pode revelar um universo que nunca visitamos. A literatura guarda memórias, a dança preserva gestos e a música consegue transformar em sentimento aquilo que nem sempre sabemos explicar. Ciência, arte e cultura possuem linguagens diferentes, mas todas podem nos ensinar a olhar.

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Olhar com atenção anda fazendo falta. Vivemos cercados de tanta pressa que corremos o risco de passar pelas coisas sem percebê-las. Pela árvore, pelo rio, pelo pássaro, pela música, pelas histórias e também pelas pessoas. Às vezes é numa caminhada qualquer que percebemos um detalhe novo no caminho, uma flor que se volta para a luz ou a beleza de uma paisagem que sempre esteve ali. A primavera está para chegar e, com ela, mais uma vez a natureza nos lembra que os ciclos também trazem renovação. É preciso estar presente para perceber. Ela tem seus tempos, seus silêncios, suas mudanças e uma extraordinária capacidade de recomeçar.

Por isso admiro quem sabe cuidar. Quem fez disso profissão e quem fez disso uma maneira de estar no mundo. Quem compreende que conhecimento não precisa afastar a sensibilidade e que a responsabilidade com o futuro começa nas escolhas feitas agora.

Entre tantos patrimônios que precisamos proteger, penso também nas pessoas que dedicam a vida a essa tarefa. Gente que pesquisa, ensina, protege, inspira e deixa conhecimento pelo caminho. Gente que nos ajuda a perceber que cuidar de um lugar também é uma forma de cuidar de quem vive nele.

No fim, todos nós passamos pelos mesmos cenários, mas algumas pessoas fazem bem aos lugares por onde passam. Deixam conhecimento, cuidado, respeito, sensibilidade e alguma coisa boa que permanece mesmo depois que seguem o caminho. Gosto de pensar que a natureza também é assim. Ela transforma silenciosamente tudo o que toca e, quando encontra quem sabe compreendê-la e cuidar dela, parece devolver um pouco desse cuidado ao mundo.

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Recuperação Judicial e a Medicina

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Assessoria

Recentemente o CEO da Agro Amazônia afirmou que “a recuperação judicial é um câncer para o agronegócio”. Aceita a comparação, vou levá-la a sério, até as últimas consequências.

Doença grave não se enfrenta com indignação, revolta ou simplesmente desejando que ela não exista. Doença se enfrenta com diagnóstico, ciência, prevenção e tratamento. A doença existe independentemente de gostarmos ou não dela.

A medicina durante décadas, procurou compreender as causas, fatores de risco e seus diferentes comportamentos. Hoje sabemos, por exemplo, que a relação de cigarro e doença é diretamente proporcional. Não foi a indignação contra a doença que produziu esse conhecimento. Foram pesquisa, dados e ciência.

Se fadados a tamanha abjeção na comparação estamos nós, no Direito legalizado de salvar empresas, que há 25 vimos fazendo, sugiro façamos o mesmo com a recuperação judicial.

Parar de reclamar e ajudar a resolver com ciência. Se o Brasil está vivendo uma epidemia de recuperações judiciais, a pergunta intelectualmente séria e honesta não é “como acabar com a recuperação judicial”, mas “por que tantas empresas estão desenvolvendo essa doença e como resolver com segurança essa questão.”

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Juros altos, crédito restrito, Alavancagem, Queda dos preços, Quebra de safra, Oscilações cambiais, Aumento dos custos de produção, Retração econômica são os fatores que aumentam o número de recuperações.

E há outro ponto importante na infeliz metáfora: na medicina, diagnóstico precoce aumenta as chances de cura.

No ambiente empresarial não é diferente. Quanto antes a crise é identificada e enfrentada, maiores são as possibilidades de reorganização e menores tendem a ser os prejuízos para credores, trabalhadores, fornecedores e para a própria economia, permitindo que o produtor consiga se reerguer mais facilmente.

A Lei da Recuperação, que hoje conta com R.E., cautelar e até mediação, criou justamente o ambiente institucional no qual essa situação é enfrentada. Seu artigo 47 estabelece como objetivo preservar a empresa, no caso, o produtor, sua função social, os empregos e os interesses dos credores.

E sim, há recuperações que conseguem reorganizar empresas e outras que não. É exatamente para fazer essa seleção que existe processo judicial, com administrador judicial, credores, assembleia, fiscalização, plano de recuperação e Advogados especializados, principalmente.

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Mais uma vez: doenças não são enfrentadas com frases de efeito. São enfrentadas procurando suas causas, identificando fatores de risco, aperfeiçoando métodos de diagnóstico e desenvolvendo tratamentos cada vez mais eficientes.

Nesse cenário, aqueles que trabalham seriamente com recuperação judicial não são propagadores da doença. São profissionais chamados justamente quando a doença já se manifestou.

Há ainda algo de missionário nessa atividade: enquanto alguns preferem reclamar, pois não enxergam ou não querem enxergar a realidade, não enxergam que outros estão diariamente dentro das empresas tentando salvar atividades produtivas, empregos, patrimônio, fornecedores e créditos.

Por fim, indignar-se com a situação e fácil. Difícil — e necessário — é ter maturidade para compreendê-la e coragem para solucioná-la.

Euclides Ribeiro é advogado há 25 anos sócio fundador da ERS Advocacia

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