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CUIABÁ

ANDRÉA MARIA ZATTAR

Por que Lippy é sempre mais divertido?

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Enquanto Lippy nos diverte, Hardy pode estar tentando dizer que precisa de ajuda.

Quem cresceu assistindo aos desenhos da Hanna-Barbera talvez se lembre de Lippy e Hardy, a dupla criada em 1962. Lippy era um leão cheio de planos, sempre convencido de que, daquela vez, tudo daria certo. Hardy, a hiena que o acompanhava, já sabia que não daria e resumia sua visão de mundo num bordão que muita gente ainda reconhece: “Oh, céus! Oh, vida! Oh, azar!”

Na tela, o contraste tornava a dupla engraçada. Fora dela, o Hardy do cotidiano costuma ser rapidamente julgado.

É o colega que não acredita que a equipe vai bater a meta, reclama do calor e do trânsito antes mesmo do bom-dia e avisa que a reunião não vai resolver nada.

Nossa primeira reação é rotulá-lo: pessimista, reclamão, difícil. Mas será que é só isso?

Pessimismo e depressão não são sinônimos, e ninguém deveria diagnosticar colegas a partir do humor. O que merece atenção é quando o desânimo deixa de ser um dia ruim e se instala na rotina. A pessoa começa a se afastar, o cansaço e a tristeza não vão embora e nós, por falta de tempo, informação ou disposição, deixamos passar.

Quando o sofrimento é nosso, muitas vezes, também agimos no automático. Culpamos a correria, dizemos que é uma fase e esperamos que passe. Às vezes passa. Quando não passa, o sono piora, a ansiedade aumenta e a rotina começa a se desfazer.

No trabalho, é comum que os colegas só percebam a gravidade quando chega o afastamento ou o pedido de demissão. Então surge, no corredor, o comentário: “Nunca imaginei”.

Na advocacia trabalhista, esse “nunca imaginei” chega com frequência ao escritório, quase sempre tarde demais.

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Ao procurar orientação, o trabalhador muitas vezes já chega com a vida profissional e pessoal comprometida. Traz laudos, prescrições médicas e registros de tratamento. Em muitos casos, já está afastado pelo INSS, foi dispensado em circunstâncias que podem caracterizar discriminação ou pediu demissão porque não suportou mais o ambiente de trabalho.

Quando o caso é relatado desde o início, surgem metas que aumentaram sem que a equipe crescesse, atribuições acumuladas e cobranças cada vez mais intensas. Em alguns casos, aparecem também humilhações, ameaças e constrangimentos diante dos colegas, condutas que podem caracterizar assédio moral.

Os números confirmam que não são casos isolados. Em 2025, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária decorrentes de transtornos mentais e comportamentais, um aumento de aproximadamente 15,7% em relação a 2024, quando foram concedidos 472.328 benefícios da mesma natureza. Esses dados não significam que todos os casos tenham origem ocupacional, mas revelam a dimensão do problema.

O adoecimento mental pode ter diferentes origens. Quando a rotina profissional contribui para desencadear ou agravar o quadro, a Lei nº 8.213/1991 admite o reconhecimento da natureza ocupacional, ainda que o trabalho não tenha sido a única causa. É a chamada concausa.

O diagnóstico, isoladamente, não garante benefício previdenciário. É necessário demonstrar que a doença incapacitou o trabalhador e, quando se pretende o reconhecimento da natureza ocupacional, comprovar o nexo entre o trabalho e o adoecimento.

Reconhecida a natureza acidentária do afastamento, o trabalhador poderá ter direito à estabilidade provisória de doze meses após a cessação do benefício. Em regra, essa garantia exige afastamento superior a quinze dias e a concessão do benefício por incapacidade temporária de natureza acidentária. A exceção ocorre quando a doença ocupacional é constatada após a dispensa, desde que comprovada sua relação com o trabalho. Durante o afastamento de natureza acidentária, o empregador deve manter os depósitos do FGTS.

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Desde 26 de maio de 2026, a nova redação da NR-1 inclui expressamente os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no gerenciamento de riscos ocupacionais. Na prática, as empresas devem identificar aspectos da organização do trabalho que possam adoecer as pessoas e demonstrar quais medidas adotaram para prevenir, controlar ou reduzir esses riscos.

Isso exige olhar para além das máquinas, dos produtos químicos e dos acidentes visíveis. Sobrecarga, metas abusivas, assédio e falta de apoio também precisam entrar nessa avaliação.

Setembro termina hoje, e os laços amarelos começam a sair das paredes. Espero que o assunto não vá junto para a gaveta. Uma palestra por ano não compensa onze meses de sobrecarga, e nenhuma norma substitui o gestor ou o colega que percebe que alguém mudou e pergunta o motivo.

Se você convive com um Hardy, talvez a primeira reação seja dizer que ele precisa reagir, que a vida não é tão ruim assim. Da próxima vez, pergunte como ele está e fique para ouvir. Lippy continua sendo mais divertido. Mas, por trás do “Oh, céus! Oh, vida! Oh, azar!”, pode haver um pedido de ajuda que ninguém soube ouvir.

ANDRÉA MARIA ZATTAR

Advogada trabalhista e previdenciarista, membro da Associação Brasileira das Mulheres de Carreira Jurídica – ABMCJ; palestrante, articulista e ativista em causas sociais.

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Quando Mato Grosso se fez sinfonia

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Muitas vezes na vida fui ao teatro para ouvir música. Dessa vez, no entanto, em algum momento me dei conta de que estava diante de um pedaço da história. Foi assim que me senti no Cine Teatro Cuiabá diante da Orquestra Sinfônica Mato Grosso. Não era apenas um concerto, nem somente a beleza e a força de uma orquestra ocupando aquele palco. Era a sensação de testemunhar a concretização de algo que começou muito antes daquela noite e que carrega sonhos, escolhas, persistência, estudo e o trabalho de muita gente.

Mato Grosso sempre produziu música. E produziu muita música boa. Nossa história musical foi sendo construída pelos sons dos povos originários, pelas violas de cocho, pelo cururu e pelo siriri, pelas bandas, pelos corais, pelos festivais, pelos compositores, pelos músicos populares e eruditos, pelas escolas e por tantas manifestações que atravessaram gerações. Por isso, pra mim, ver a consolidação de uma orquestra sinfônica com essa dimensão representa muito mais do que assistir ao nascimento de mais um grupo musical. Representa um passo importante na maneira como reconhecemos, valorizamos e projetamos aquilo que somos capazes de produzir.

É impossível olhar para a Orquestra Sinfônica Mato Grosso sem reconhecer a caminhada do Instituto Ciranda, que durante mais de duas décadas formou músicos, criou oportunidades e ajudou a estabelecer uma cultura de música orquestral em nosso estado. O que vimos no palco do Cine Teatro não começou naquela noite. Era resultado de um trabalho continuado, daqueles que precisam de tempo para amadurecer. A cultura também é isso, plantar sabendo que muitas vezes outra geração estará sentada à sombra da árvore. E foi bonito demais ver essa árvore grande em plena primavera.

Um dos momentos que mais me tocaram foi a estreia mundial da Fantasia Sinfônica para Orquestra Aquarela Mato-Grossense, de Jhon Stuart, obra encomendada pela própria Orquestra Sinfônica Mato Grosso. Jhon é um amigo querido, músico que admiro, e vê-lo entregar uma composição dessa dimensão ao repertório sinfônico do nosso estado tornou a noite ainda mais especial para mim. Sua aquarela não precisava de tela ou pincel. As cores estavam nos instrumentos, nos timbres, nas texturas e na possibilidade de transformar em música um pouco da diversidade deste Mato Grosso tão imenso.

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Tem uma força simbólica muito grande nisso. Durante muito tempo nos acostumamos a pensar a música de concerto a partir de obras e compositores que vieram de outros lugares e de outros tempos. E continuaremos ouvindo e reverenciando os grandes mestres que construíram esse repertório. Mas acredito mesmo que uma orquestra também precisa olhar para o chão onde está pisando, provocar nossos compositores, interpretar nossa produção e perguntar que sons estão aqui esperando para ganhar uma partitura. Naquela noite, uma das respostas mais lindas estava diante de nós.

A presença da Sinfonia nº 9, de Antonín Dvořák, a extraordinária Do Novo Mundo, na segunda parte do programa tornou essa conversa ainda mais interessante. Uma das obras mais importantes do repertório sinfônico mundial dividia a mesma noite com uma composição que acabava de nascer em Mato Grosso. Uma atravessou mais de um século para chegar até nós enquanto a outra começava ali sua própria caminhada pelo tempo.

Acho bonito e me agrada imensamente quando a tradição e o novo conseguem dividir o mesmo palco sem que um precise diminuir o outro. Pelo contrário. Dvořák engrandeceu a noite de Jhon Stuart e a presença de uma nova obra brasileira também nos permitiu ouvir Dvořák a partir do lugar onde estamos. Era o mundo chegando a Mato Grosso e Mato Grosso apresentando um pouco de si ao mundo.

Uma realização desse tamanho também precisa de pessoas que acreditem nela quando ainda está sendo construída, e por isso faço questão de registrar minha gratidão e um reconhecimento muito especial à Gliciane Chiarelle Scheffer, amiga desde os tempos de faculdade e hoje diretora da Orquestra Sinfônica Mato Grosso. Gliciane é parte muito importante dessa construção e fala da orquestra como uma ponte de conexão e aproximação com a sociedade, uma definição que diz muito sobre o que uma instituição como essa pode representar para a cidade, para o estado e, principalmente, para as próximas gerações. À Gliciane, meu agradecimento muito especial pelo trabalho, pela dedicação, por acreditar e por ajudar a transformar um sonho tão grande em música.

Também deixo meu abraço e meus parabéns efusivos à amiga Jéssica Gourbet e ao maestro Murilo Alves, amigo desde os tempos de faculdade, pelo sonho concretizado e pela condução de uma noite que já ocupa um lugar especial na história da nossa música. Alguns sonhos levam anos para adquirir forma, som e tamanho e, quando finalmente acontecem, deixam de pertencer somente a quem os sonhou para se tornarem um pouco nossos também.

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Enquanto observava aquela quantidade de músicos no palco, pensei muito nos jovens que estavam na plateia e nos que ainda conhecerão a Orquestra Sinfônica Mato Grosso. Uma instituição dessa natureza não oferece apenas concertos, oferece referências. Um menino ou uma menina que começa hoje a estudar um instrumento pode olhar para aquele palco e imaginar a si mesmo ali. E quando uma criança consegue se imaginar ocupando determinado lugar, alguma coisa importante já começou a acontecer. É também assim que uma orquestra se transforma em educação, oportunidade, trabalho, formação de público e desenvolvimento cultural, permitindo que nossos músicos nasçam aqui, estudem aqui, cresçam aqui e encontrem também aqui espaço para exercer sua profissão. Precisamos continuar abrindo portas para que nossos artistas conheçam o mundo, mas precisamos igualmente construir razões para que o mundo olhe para Mato Grosso.

Saí do Cine Teatro com a impressão de que assistimos a algo muito maior do que um concerto. Assistimos ao encontro de muitas histórias, de quem começou esse trabalho décadas atrás, de quem ensinou, de quem aprendeu, de quem insistiu, de quem conseguiu recursos, de quem abriu portas, de quem compôs, de quem regeu e de cada músico que ocupou aquele palco.

A música tem essa capacidade extraordinária de transformar tempo em som. Uma nota dura poucos segundos, mas pode carregar décadas dentro dela.

Daqui a muitos anos, quando alguém procurar contar parte da história da música sinfônica produzida em Mato Grosso, alguns momentos precisarão ser lembrados, e o concerto do dia 26 de setembro de 2026 será um deles. Gosto de pensar que nós estávamos lá, que vimos, ouvimos e aplaudimos e que, por algumas horas, naquele palco do Cine Teatro Cuiabá, Mato Grosso não estava apenas ouvindo música.

Estava ouvindo a si mesmo.

Bravo, Sinfônica Mato Grosso!

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