RAUL FORTES
Quando Mato Grosso se fez sinfonia
Muitas vezes na vida fui ao teatro para ouvir música. Dessa vez, no entanto, em algum momento me dei conta de que estava diante de um pedaço da história. Foi assim que me senti no Cine Teatro Cuiabá diante da Orquestra Sinfônica Mato Grosso. Não era apenas um concerto, nem somente a beleza e a força de uma orquestra ocupando aquele palco. Era a sensação de testemunhar a concretização de algo que começou muito antes daquela noite e que carrega sonhos, escolhas, persistência, estudo e o trabalho de muita gente.
Mato Grosso sempre produziu música. E produziu muita música boa. Nossa história musical foi sendo construída pelos sons dos povos originários, pelas violas de cocho, pelo cururu e pelo siriri, pelas bandas, pelos corais, pelos festivais, pelos compositores, pelos músicos populares e eruditos, pelas escolas e por tantas manifestações que atravessaram gerações. Por isso, pra mim, ver a consolidação de uma orquestra sinfônica com essa dimensão representa muito mais do que assistir ao nascimento de mais um grupo musical. Representa um passo importante na maneira como reconhecemos, valorizamos e projetamos aquilo que somos capazes de produzir.
É impossível olhar para a Orquestra Sinfônica Mato Grosso sem reconhecer a caminhada do Instituto Ciranda, que durante mais de duas décadas formou músicos, criou oportunidades e ajudou a estabelecer uma cultura de música orquestral em nosso estado. O que vimos no palco do Cine Teatro não começou naquela noite. Era resultado de um trabalho continuado, daqueles que precisam de tempo para amadurecer. A cultura também é isso, plantar sabendo que muitas vezes outra geração estará sentada à sombra da árvore. E foi bonito demais ver essa árvore grande em plena primavera.
Um dos momentos que mais me tocaram foi a estreia mundial da Fantasia Sinfônica para Orquestra Aquarela Mato-Grossense, de Jhon Stuart, obra encomendada pela própria Orquestra Sinfônica Mato Grosso. Jhon é um amigo querido, músico que admiro, e vê-lo entregar uma composição dessa dimensão ao repertório sinfônico do nosso estado tornou a noite ainda mais especial para mim. Sua aquarela não precisava de tela ou pincel. As cores estavam nos instrumentos, nos timbres, nas texturas e na possibilidade de transformar em música um pouco da diversidade deste Mato Grosso tão imenso.
Tem uma força simbólica muito grande nisso. Durante muito tempo nos acostumamos a pensar a música de concerto a partir de obras e compositores que vieram de outros lugares e de outros tempos. E continuaremos ouvindo e reverenciando os grandes mestres que construíram esse repertório. Mas acredito mesmo que uma orquestra também precisa olhar para o chão onde está pisando, provocar nossos compositores, interpretar nossa produção e perguntar que sons estão aqui esperando para ganhar uma partitura. Naquela noite, uma das respostas mais lindas estava diante de nós.
A presença da Sinfonia nº 9, de Antonín Dvořák, a extraordinária Do Novo Mundo, na segunda parte do programa tornou essa conversa ainda mais interessante. Uma das obras mais importantes do repertório sinfônico mundial dividia a mesma noite com uma composição que acabava de nascer em Mato Grosso. Uma atravessou mais de um século para chegar até nós enquanto a outra começava ali sua própria caminhada pelo tempo.
Acho bonito e me agrada imensamente quando a tradição e o novo conseguem dividir o mesmo palco sem que um precise diminuir o outro. Pelo contrário. Dvořák engrandeceu a noite de Jhon Stuart e a presença de uma nova obra brasileira também nos permitiu ouvir Dvořák a partir do lugar onde estamos. Era o mundo chegando a Mato Grosso e Mato Grosso apresentando um pouco de si ao mundo.
Uma realização desse tamanho também precisa de pessoas que acreditem nela quando ainda está sendo construída, e por isso faço questão de registrar minha gratidão e um reconhecimento muito especial à Gliciane Chiarelle Scheffer, amiga desde os tempos de faculdade e hoje diretora da Orquestra Sinfônica Mato Grosso. Gliciane é parte muito importante dessa construção e fala da orquestra como uma ponte de conexão e aproximação com a sociedade, uma definição que diz muito sobre o que uma instituição como essa pode representar para a cidade, para o estado e, principalmente, para as próximas gerações. À Gliciane, meu agradecimento muito especial pelo trabalho, pela dedicação, por acreditar e por ajudar a transformar um sonho tão grande em música.
Também deixo meu abraço e meus parabéns efusivos à amiga Jéssica Gourbet e ao maestro Murilo Alves, amigo desde os tempos de faculdade, pelo sonho concretizado e pela condução de uma noite que já ocupa um lugar especial na história da nossa música. Alguns sonhos levam anos para adquirir forma, som e tamanho e, quando finalmente acontecem, deixam de pertencer somente a quem os sonhou para se tornarem um pouco nossos também.
Enquanto observava aquela quantidade de músicos no palco, pensei muito nos jovens que estavam na plateia e nos que ainda conhecerão a Orquestra Sinfônica Mato Grosso. Uma instituição dessa natureza não oferece apenas concertos, oferece referências. Um menino ou uma menina que começa hoje a estudar um instrumento pode olhar para aquele palco e imaginar a si mesmo ali. E quando uma criança consegue se imaginar ocupando determinado lugar, alguma coisa importante já começou a acontecer. É também assim que uma orquestra se transforma em educação, oportunidade, trabalho, formação de público e desenvolvimento cultural, permitindo que nossos músicos nasçam aqui, estudem aqui, cresçam aqui e encontrem também aqui espaço para exercer sua profissão. Precisamos continuar abrindo portas para que nossos artistas conheçam o mundo, mas precisamos igualmente construir razões para que o mundo olhe para Mato Grosso.
Saí do Cine Teatro com a impressão de que assistimos a algo muito maior do que um concerto. Assistimos ao encontro de muitas histórias, de quem começou esse trabalho décadas atrás, de quem ensinou, de quem aprendeu, de quem insistiu, de quem conseguiu recursos, de quem abriu portas, de quem compôs, de quem regeu e de cada músico que ocupou aquele palco.
A música tem essa capacidade extraordinária de transformar tempo em som. Uma nota dura poucos segundos, mas pode carregar décadas dentro dela.
Daqui a muitos anos, quando alguém procurar contar parte da história da música sinfônica produzida em Mato Grosso, alguns momentos precisarão ser lembrados, e o concerto do dia 26 de setembro de 2026 será um deles. Gosto de pensar que nós estávamos lá, que vimos, ouvimos e aplaudimos e que, por algumas horas, naquele palco do Cine Teatro Cuiabá, Mato Grosso não estava apenas ouvindo música.
Estava ouvindo a si mesmo.
Bravo, Sinfônica Mato Grosso!
A primavera chega e, com ela, uma palavra que parece ganhar outros tons no calendário. Na imaginação, a estação vem acompanhada de flores, jardins, tardes bonitas e paisagens que recuperam o verde. Na vida real, nem sempre acontece exatamente assim. Em boa parte do Centro-Oeste brasileiro, ela começa quando ainda convivemos com calor intenso, baixa umidade e uma paisagem cansada de tantos dias sem chuva. Por aqui, antes de ser flor, primavera é espera.
Sempre achei bonita essa contradição. Enquanto esperamos a chuva, os ipês resolvem florescer justamente quando a terra está mais seca. Depois, quando as primeiras águas finalmente chegam, o cheiro da terra molhada se espalha como um perfume que quem vive por estas bandas reconhece de longe. Aos poucos, muda o céu, muda a paisagem e muda também alguma coisa em nós. A primavera lembra que a natureza tem seu próprio tempo.
A arte percebeu há muito essa relação entre natureza e transformação. Monet fez de seu jardim em Giverny um universo de água, luz e movimento. Tarsila do Amaral encontrou na natureza uma linguagem para suas formas e chegou a pintar, em 1946, uma obra chamada “Primavera”. Na música brasileira, a estação ganhou muitos significados. Tim Maia fez dela declaração de amor. Beto Guedes e Ronaldo Bastos fizeram setembro anunciar a boa nova pelos campos. E “Primavera nos Dentes”, gravada por Secos & Molhados, mostrou que resistir também pode carregar a força de uma nova estação.
É justamente aí que a arte amplia nosso olhar. A primavera deixa de ser apenas uma estação e passa a representar amor, esperança, resistência, mudança e renovação. A flor, por si só, carrega uma simbologia imensa. Está na pintura, na música, na literatura, nos afetos e na maneira como tantas culturas representam a vida e seus ciclos. A primavera também ganhou esse lugar na arte, transformada em verso, canção e inspiração. E determinados momentos da vida podem nos ensinar novas formas de enxergar aquilo que sempre esteve diante dos nossos olhos.
Tenho pensado nessa capacidade de mudar o olhar sem precisar mudar a paisagem. O caminho pode ser o mesmo, o café pode continuar no mesmo lugar, a música pode ser aquela que conhecemos há anos e, ainda assim, tudo ganhar outro significado. São os detalhes que muitas vezes revelam o que a pressa não nos permitia perceber. Para mim, isso também é primaverar.
A palavra, aliás, é bonita. Primavera acabou virando verbo. Primaverar. Mais do que desfrutar a estação ou esperar as primeiras chuvas, pode significar conservar a capacidade de perceber o que nasce perto de nós. É regar sonhos, afetos, ideias, música, cultura e tudo aquilo que merece continuar vivo. É entender também que cada coisa encontra o próprio tempo.
Setembro ainda me faz pensar nos ciclos que se completam e nos que começam, nas datas que ganham significado e permanecem guardadas de um jeito especial. A árvore que floresce carrega consigo os meses que atravessou. Nós também. Levamos nossas esperas, nossas experiências, aquilo que ficou e aquilo que mudou. Seguir adiante não apaga o caminho percorrido. Apenas acrescenta algo novo a ele.
A primavera começa e abre novamente suas janelas. Que venham as chuvas, os ipês, as músicas, os palcos, os livros e tudo aquilo que ainda puder florescer. Depois de tantas primaveras, uma coisa a arte e a natureza continuam nos ensinando. Recomeçar não significa voltar ao início. Significa florescer de outro jeito.
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