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CUIABÁ

Bruna Ghetti

O silêncio que muitas mulheres carregam no próprio corpo

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Tem um sofrimento que vive escondido. Não aparece em conversa de roda, não é assunto de almoço de família, não ganha espaço nem entre amigas próximas. Ele simplesmente vai sendo carregado, dia após dia, em silêncio. A mulher aprende a colocar um absorvente antes de sair, descobre mentalmente onde fica o banheiro de cada lugar que frequenta, para de rir com vontade, deixa a academia de lado, abre mão da viagem que tanto queria fazer. E vai vivendo assim, reorganizando a própria vida em torno de algo que nunca deveria ter se tornado o centro dela.

A incontinência urinária ainda é tratada como se fosse uma consequência inevitável de ter filhos, de envelhecer ou simplesmente de ser mulher. Como se perder urina fosse um preço a pagar. Não é. E essa ideia precisa ser desconstruída com urgência.

Como ginecologista, eu vejo isso de perto. Pacientes que chegam ao consultório depois de anos convivendo com o problema, acreditando, de verdade, que não havia saída. Que aquilo era a vida delas agora. O que mais me marca não é o sintoma em si, é a forma como elas chegam: diminuídas, envergonhadas, quase se desculpando por estar ali. Como se pedir ajuda para algo que afeta profundamente a qualidade de vida fosse exagero.

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A perda de urina pode acontecer de formas diferentes. Tem mulher que sente o escape ao espirrar, tossir, gargalhar ou pular. Tem quem sinta aquela urgência repentina e não consiga chegar ao banheiro a tempo. Tem ainda quem viva os dois juntos. Mas independente de como acontece, o estrago emocional costuma ir muito além do que qualquer número ou exame consegue medir. A ansiedade antes de sair de casa. A vergonha do próprio corpo. O isolamento que vai chegando devagar, quase sem ser percebido.

Os fatores que contribuem para isso são muitos: gestação, parto, menopausa, envelhecimento dos tecidos, obesidade, constipação, tabagismo, doenças crônicas. Mas um ponto que eu sempre reforço: mulheres jovens também têm incontinência. Não existe uma fase da vida em que esse problema “faz sentido” aparecer e outra em que não faz. Ele pode chegar a qualquer momento. E em qualquer momento é válido buscar ajuda.

O que não é válido, e precisa ser dito com todas as letras, é usar absorvente diário como se fosse solução. Adaptar a rotina ao sintoma não resolve nada, apenas posterga. Hoje existem caminhos reais de tratamento, e eles dependem de cada caso. Às vezes mudanças de hábito e fisioterapia pélvica já mudam completamente o quadro. Em outros casos, procedimentos mais específicos são o caminho. O que importa é que existe saída, e ela começa com uma consulta.

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A saúde íntima da mulher ainda vive cercada de silêncio, e esse silêncio tem um custo alto. Quando uma mulher acredita que precisa sofrer calada, ela não busca cuidado. Ela simplesmente vai abrindo mão, aos poucos, de partes da própria vida.

Nenhuma mulher deveria deixar de rir com vontade por medo de um escape. Não deveria deixar de malhar, de viajar, de viver o próprio corpo com leveza. Isso não é frescura, não é fraqueza, não é falta de cuidado. É uma condição de saúde. Merece atenção, merece diagnóstico, merece tratamento. E merece, acima de tudo, ser falada sem vergonha.

 

Bruna Ghetti- ginecologista, especialista em mulheres 40+

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Mato Grosso cantou Pescuma

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Alguns espetáculos terminam quando as luzes se apagam. Outros continuam ecoando. O que aconteceu ontem no Cine Teatro Cuiabá pertence a essa segunda categoria.

“Mato Grosso canta Pescuma” não foi apenas um show. Foi um encontro de afetos. Uma celebração coletiva da memória cultural de um estado que aprendeu a se reconhecer nas canções de um homem que escolheu Mato Grosso como morada definitiva da própria alma.

Durante toda a noite, o teatro viveu algo raro. O público não assistia apenas a apresentações musicais. O público lembrava. Cantava junto. Reconhecia paisagens dentro das melodias. Via sua própria história atravessando o palco em forma de rasqueado, poesia, rio, estrada, quintal, amor e saudade.

A obra de Pescuma apareceu sob novas possibilidades. Canções já conhecidas ganharam novos caminhos através de arranjos orquestrados, interpretações femininas, duetos, trios, declamações e diferentes leituras estéticas que ampliaram ainda mais a dimensão da sua música. Foi bonito perceber como uma obra tão profundamente ligada ao território consegue se reinventar sem perder a própria essência.

As intervenções cênicas e as declamações dos atores do Grupo Sena Onze, capitaneado por Flávio Ferreira, também ajudaram a construir a atmosfera do espetáculo. Entre uma canção e outra, a palavra surgia como ponte entre memória, poesia e pertencimento, ampliando ainda mais a dimensão afetiva da obra de Pescuma.

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A Orquestra SESI Mato Grosso e artistas convidados, sob a regência do maestro Fabrício Carvalho, conduziram musicalmente uma noite marcada pelo encontro entre a sofisticação dos arranjos e a força popular das canções que ajudaram a construir parte importante da identidade cultural de Mato Grosso. Tudo isso costurado por uma direção artística preocupada não apenas em reverenciar a memória de Pescuma, mas em revelar a permanência e a grandeza de sua obra.

O palco também reunia tempos diferentes da cultura da nossa região. Hélio Pimentel, Claudinho e Dona Domingas carregavam consigo a memória viva de uma geração que ajudou a construir parte importante da nossa identidade cultural. Ao lado deles, artistas como Ana Rafaela lembravam que essa música segue encontrando novas vozes, novos caminhos e novas formas de permanecer viva.

Pescuma não foi celebrado apenas como cantor ou compositor. Foi celebrado como símbolo de pertencimento cultural.

O Cine Teatro Cuiabá, espaço histórico no coração do centro histórico da cidade, também ajudou a transformar a noite em algo ainda mais simbólico. Há lugares que carregam memória nas paredes, e o teatro parecia dialogar diretamente com tudo aquilo que acontecia no palco. A história do espaço encontrava a história da música brasileira.

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Com apoio da TV Centro América, da equipe do Cine Teatro Cuiabá e de tantos artistas, músicos e técnicos envolvidos, o espetáculo se transformou numa grande celebração coletiva da cultura do nosso país.

Houve momentos de festa. Houve silêncio emocionado. Houve instantes em que a música parecia suspender o tempo para lembrar algo essencial: cultura também é pertencimento.

Em tempos tão acelerados, noites assim se tornam necessárias. Elas nos lembram de onde viemos. Nos fazem perceber que a memória de um povo não vive apenas nos livros ou nos museus. Ela vive na canção compartilhada, na palavra cantada, na emoção que atravessa gerações.

“Mato Grosso canta Pescuma” terminou sob aplausos longos, daqueles que parecem agradecer mais do que um espetáculo. Aplaudia-se uma trajetória. Uma obra. Uma vida dedicada à valorização da cultura popular brasileira produzida em Mato Grosso.

No fim das contas, não foi apenas o palco que cantou Pescuma.

Mato Grosso inteiro cantou junto.

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