Alguns espetáculos terminam quando as luzes se apagam. Outros continuam ecoando. O que aconteceu ontem no Cine Teatro Cuiabá pertence a essa segunda categoria.
“Mato Grosso canta Pescuma” não foi apenas um show. Foi um encontro de afetos. Uma celebração coletiva da memória cultural de um estado que aprendeu a se reconhecer nas canções de um homem que escolheu Mato Grosso como morada definitiva da própria alma.
Durante toda a noite, o teatro viveu algo raro. O público não assistia apenas a apresentações musicais. O público lembrava. Cantava junto. Reconhecia paisagens dentro das melodias. Via sua própria história atravessando o palco em forma de rasqueado, poesia, rio, estrada, quintal, amor e saudade.
A obra de Pescuma apareceu sob novas possibilidades. Canções já conhecidas ganharam novos caminhos através de arranjos orquestrados, interpretações femininas, duetos, trios, declamações e diferentes leituras estéticas que ampliaram ainda mais a dimensão da sua música. Foi bonito perceber como uma obra tão profundamente ligada ao território consegue se reinventar sem perder a própria essência.
As intervenções cênicas e as declamações dos atores do Grupo Sena Onze, capitaneado por Flávio Ferreira, também ajudaram a construir a atmosfera do espetáculo. Entre uma canção e outra, a palavra surgia como ponte entre memória, poesia e pertencimento, ampliando ainda mais a dimensão afetiva da obra de Pescuma.
A Orquestra SESI Mato Grosso e artistas convidados, sob a regência do maestro Fabrício Carvalho, conduziram musicalmente uma noite marcada pelo encontro entre a sofisticação dos arranjos e a força popular das canções que ajudaram a construir parte importante da identidade cultural de Mato Grosso. Tudo isso costurado por uma direção artística preocupada não apenas em reverenciar a memória de Pescuma, mas em revelar a permanência e a grandeza de sua obra.
O palco também reunia tempos diferentes da cultura da nossa região. Hélio Pimentel, Claudinho e Dona Domingas carregavam consigo a memória viva de uma geração que ajudou a construir parte importante da nossa identidade cultural. Ao lado deles, artistas como Ana Rafaela lembravam que essa música segue encontrando novas vozes, novos caminhos e novas formas de permanecer viva.
Pescuma não foi celebrado apenas como cantor ou compositor. Foi celebrado como símbolo de pertencimento cultural.
O Cine Teatro Cuiabá, espaço histórico no coração do centro histórico da cidade, também ajudou a transformar a noite em algo ainda mais simbólico. Há lugares que carregam memória nas paredes, e o teatro parecia dialogar diretamente com tudo aquilo que acontecia no palco. A história do espaço encontrava a história da música brasileira.
Com apoio da TV Centro América, da equipe do Cine Teatro Cuiabá e de tantos artistas, músicos e técnicos envolvidos, o espetáculo se transformou numa grande celebração coletiva da cultura do nosso país.
Houve momentos de festa. Houve silêncio emocionado. Houve instantes em que a música parecia suspender o tempo para lembrar algo essencial: cultura também é pertencimento.
Em tempos tão acelerados, noites assim se tornam necessárias. Elas nos lembram de onde viemos. Nos fazem perceber que a memória de um povo não vive apenas nos livros ou nos museus. Ela vive na canção compartilhada, na palavra cantada, na emoção que atravessa gerações.
“Mato Grosso canta Pescuma” terminou sob aplausos longos, daqueles que parecem agradecer mais do que um espetáculo. Aplaudia-se uma trajetória. Uma obra. Uma vida dedicada à valorização da cultura popular brasileira produzida em Mato Grosso.
No fim das contas, não foi apenas o palco que cantou Pescuma.
Mato Grosso inteiro cantou junto.