Em outras oportunidades, já navegamos por aqui entre trovas, vinhos e canções; estivemos nas ondas do rádio, celebramos o fonógrafo e nos encantamos com o som das velhas caixinhas de música. Todos esses temas que atravessam a existência, entre nostalgia e invenção, carregam algo em comum: a transmissão do saber, o legado do conhecimento que, feito rio, vem de longe para desaguar em nós.
E é nesse ponto que Educação e Cultura se encontram: ambas nascem do desejo de partilhar. Ensinar é, de algum modo, fazer cultura, cultivar pessoas, ideias e afetos.
Foi com esse espírito que, ao pensar sobre o que escrever nesta semana de outubro, me veio uma pergunta inquietante: e se eu, por um acaso do destino, não soubesse ler ou escrever? Se, ainda que falasse a língua dos anjos, não tivesse aprendido o alfabeto da terra? Provavelmente não estaria aqui, agora, escrevendo estas palavras e reverenciando aqueles que me conduziram à beira do saber: os professores e professoras da minha vida.
Porque educar é uma forma de amar. É estender a mão e acender a chama do outro. É também, como na cultura, um ato de continuidade, de passar o bastão, de preservar a memória, de criar o novo sem apagar o velho. Foi exatamente isso que fizeram comigo tantas figuras fundamentais e tantas vezes invisibilizadas ao longo do caminho.
Diante desse reconhecimento, não posso senão agradecer e reverenciar, com todos os verbos que conjugam gratidão, os mestres que me tomaram pela mão e apontaram as letras do mundo. Começando pelas que me deram as primeiras palavras: minha mãe, Beatriz, e minha avó, Adelaide. Ambas, em casa, foram minhas primeiras mestras, antes mesmo das carteiras escolares. A elas devo o balbucio inicial, aquele som que prenuncia o verbo.
Junto a elas, recordo a força poética do meu avô China, que me ensinou a ouvir música com o coração. Lembro também minha tia-avó Nilza Freire, mulher de letras, imortal acadêmica que sempre me foi referência.
Ali, ainda na infância, a cultura se fez professora e a casa, sala de aula.
Com esse alicerce familiar, fui entrando no espaço formal da educação. Ali conheci verdadeiras joias da sabedoria. Não consigo nomear todas, seria como tentar listar as estrelas. Mas algumas brilham com intensidade que a memória não permite esquecer.
Entre elas, lembro com gratidão o professor Luizinho, do Colégio Salesiano São Gonçalo, que representou os tantos mestres e mestras do meu Ensino Fundamental e Médio. Sua presença firme, generosa e inspiradora ajudou a moldar não apenas o estudante, mas o ser humano que eu viria a ser. Foi com ele e com tantos outros professores dessa fase da vida que aprendi a disciplina, o respeito e o valor do conhecimento como caminho de liberdade.
Mais adiante, já na universidade, encontrei outras vozes que continuaram a acender essa chama. Entre todas, cito com reverência as professoras Marta Cocco e Rosângela Calix, cujas paixões pelo ensino não cabiam em quadros-negros ou apostilas. Eram mulheres que não apenas transmitiam conteúdo, mas despertavam sentido. O que ensinavam ultrapassava os muros da academia: era vida, era arte, era provocação.
Mas não posso deixar de lembrar que essa chama que move educadores e educadoras do mundo inteiro vem sendo acesa há séculos por grandes mestres do pensamento.
Paulo Freire, talvez nosso educador maior, ensinou que educar é um ato de amor, por isso, um ato de coragem. Sua lição ecoa em cada sala de aula onde se ensina com liberdade e consciência.
Anísio Teixeira sonhou com uma escola pública democrática que libertasse, e não domesticásse.
Darcy Ribeiro lembrava que a crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto, e que resistir a ela é dever de todo professor.
Maria Montessori, Jean Piaget, Lev Vygotsky e John Dewey mostraram que aprender é também experimentar, brincar, descobrir e conviver.
E Rubem Alves nos ensinou que o professor é aquele que ensina o aluno a voar para fora da gaiola.
E aqui, entre tantos nomes que iluminam o caminho da educação e da cultura, faço uma dedicatória especial ao professor Abel Santos, Habel dy Anjos.
Educador, Doutor, por notório saber, pesquisador e poeta da vida, ele me ensinou que o saber também vem da vida simples, dos rios que ensinam e das mãos que criam
Seu trabalho, entre a academia e o território, entre o livro e o canto, é exemplo vivo de que o conhecimento não se limita às paredes da universidade.
Em cada aula, em cada conversa, Abel nos faz lembrar que a cultura é uma pedagogia da sensibilidade e que ensinar também é um ato de amor.
Por isso, nesta semana em que se celebra o Dia do Professor, não posso deixar de estender minha singela homenagem a todas as pessoas que se dedicam à arte de professar. Sim, arte, porque ensinar é criação, é gesto estético, é construção de mundos.
Num tempo em que o conhecimento muitas vezes se torna mercadoria e a educação é alvo de desmontes, resistir como educador é um ato de amor e também de cultura.
Afinal, toda cultura nasce do ensino, e todo ensino é, em essência, um ato cultural.
É preciso reconhecer: sem os professores não há futuro possível. Eles são os semeadores silenciosos do amanhã. E em cada sala de aula, em cada oficina, em cada roda de conversa, há um pedacinho da história sendo moldado, palavra por palavra, gesto por gesto.
E talvez seja essa a grande lição que o tempo nos oferece: o conhecimento é uma semente, e cada professor é um jardineiro da esperança.
Que sigamos cultivando o saber como quem planta flores no deserto, com paciência, ternura e fé no porvir.
Porque professar, educar e fazer cultura é o mesmo verbo em diferentes tempos.
E que ele seja sempre conjugado no presente.