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O Mar como território da música brasileira

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São cinco da manhã.
Estou sentado em frente ao mar, na Península de Maraú, na Bahia. O dia ainda ensaia nascer, e a praia permanece em silêncio, um silêncio cheio, habitado pelo som das ondas e por tudo o que elas carregam de história.

Escrevo essa coluna com os pés na areia e o pensamento atravessado pela música. Porque aqui, diante do mar, a cultura brasileira parece ganhar outra nitidez. É como se cada onda trouxesse junto um compasso, um canto antigo, uma memória que não se perdeu.

A música do Brasil nasce desse encontro: água, corpo, espera e voz. Na Bahia, isso se faz ainda mais evidente. O mar não é apenas cenário, é matriz. Ele está no balanço que organiza o samba, na cadência que embala o canto, no tempo largo que permite à música respirar.

Não é por acaso que daqui emergiram canções que parecem conversar diretamente com o horizonte. Dorival Caymmi compreendeu cedo que o mar tinha melodia própria. Suas canções não descrevem a paisagem. Elas pertencem a ela. O pescador, a canoa, a maré. Tudo soa como música antes mesmo de virar letra.

Mais tarde, foi também desse litoral simbólico que João Gilberto reorganizou o tempo da canção brasileira. A batida do violão, mínima e precisa, parece aprender com o ir e vir das ondas. Nada em excesso, nada fora do lugar. Uma música que não se impõe, mas permanece.

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O mar também funciona como espelho. Quem para diante dele acaba se vendo com mais clareza. As inquietações aparecem, mas também aprendem a desacelerar. O mar não resolve, mas ensina. Ensina que tudo tem ritmo, que força não precisa ser barulho e que insistir é diferente de se perder. Talvez por isso tantas pessoas voltem a ele em busca de respostas, mesmo sabendo que ele devolve mais perguntas do que certezas.

Mas a Bahia não parou aí. O mar seguiu atravessando gerações e reaparecendo em novas formas, novos discursos e novas urgências. Em Gilberto Gil, o litoral vira pensamento, política do afeto, mistura de tradição e futuro. Em Caetano Veloso, o mar é metáfora constante. Ora acolhimento, ora conflito, ora desejo de liberdade. A música brasileira, quando nasce ou passa por aqui, aprende que beleza e complexidade caminham juntas.

Entre uma geração e outra, a Bahia também ensinou que viver pode ser um gesto artístico. Os Novos Baianos traduziram isso como poucos. Fizeram da praia, da casa coletiva, do corpo em movimento e da liberdade uma forma de música. Suas canções soam como manhãs longas, como o tempo desacelerado de quem escolhe existir fora das pressas impostas. Há mar no jeito como eles cantam. Um mar cotidiano e profundamente humano.

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Décadas depois, o litoral reaparece tensionado, urbano, elétrico. O BaianaSystem conecta mar, cidade, ancestralidade e tecnologia. O grave que pulsa vem do chão, mas carrega a memória das águas. É a Bahia falando em voz alta sobre presente, resistência e pertencimento, provando que tradição não é passado congelado, mas movimento contínuo.

Às cinco da manhã, diante do mar, fica claro que a praia é um território cultural profundo. É onde o Brasil aprendeu a cantar olhando longe. Onde a música nasceu do trabalho, do descanso, da fé e da espera. Onde o som nunca veio para preencher o vazio, mas para dialogar com ele.

Talvez seja por isso que escrever aqui faça tanto sentido. O mar ajuda a organizar o pensamento. Ele lembra que cultura não é ruído constante, mas escuta atenta. E que, assim como a música, tudo o que permanece verdadeiro precisa de tempo, espaço e silêncio.

O sol começa a aparecer.
O texto termina.
O mar segue, ensinando, como sempre, o ritmo certo das coisas.

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O silêncio que muitas mulheres carregam no próprio corpo

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Tem um sofrimento que vive escondido. Não aparece em conversa de roda, não é assunto de almoço de família, não ganha espaço nem entre amigas próximas. Ele simplesmente vai sendo carregado, dia após dia, em silêncio. A mulher aprende a colocar um absorvente antes de sair, descobre mentalmente onde fica o banheiro de cada lugar que frequenta, para de rir com vontade, deixa a academia de lado, abre mão da viagem que tanto queria fazer. E vai vivendo assim, reorganizando a própria vida em torno de algo que nunca deveria ter se tornado o centro dela.

A incontinência urinária ainda é tratada como se fosse uma consequência inevitável de ter filhos, de envelhecer ou simplesmente de ser mulher. Como se perder urina fosse um preço a pagar. Não é. E essa ideia precisa ser desconstruída com urgência.

Como ginecologista, eu vejo isso de perto. Pacientes que chegam ao consultório depois de anos convivendo com o problema, acreditando, de verdade, que não havia saída. Que aquilo era a vida delas agora. O que mais me marca não é o sintoma em si, é a forma como elas chegam: diminuídas, envergonhadas, quase se desculpando por estar ali. Como se pedir ajuda para algo que afeta profundamente a qualidade de vida fosse exagero.

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A perda de urina pode acontecer de formas diferentes. Tem mulher que sente o escape ao espirrar, tossir, gargalhar ou pular. Tem quem sinta aquela urgência repentina e não consiga chegar ao banheiro a tempo. Tem ainda quem viva os dois juntos. Mas independente de como acontece, o estrago emocional costuma ir muito além do que qualquer número ou exame consegue medir. A ansiedade antes de sair de casa. A vergonha do próprio corpo. O isolamento que vai chegando devagar, quase sem ser percebido.

Os fatores que contribuem para isso são muitos: gestação, parto, menopausa, envelhecimento dos tecidos, obesidade, constipação, tabagismo, doenças crônicas. Mas um ponto que eu sempre reforço: mulheres jovens também têm incontinência. Não existe uma fase da vida em que esse problema “faz sentido” aparecer e outra em que não faz. Ele pode chegar a qualquer momento. E em qualquer momento é válido buscar ajuda.

O que não é válido, e precisa ser dito com todas as letras, é usar absorvente diário como se fosse solução. Adaptar a rotina ao sintoma não resolve nada, apenas posterga. Hoje existem caminhos reais de tratamento, e eles dependem de cada caso. Às vezes mudanças de hábito e fisioterapia pélvica já mudam completamente o quadro. Em outros casos, procedimentos mais específicos são o caminho. O que importa é que existe saída, e ela começa com uma consulta.

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A saúde íntima da mulher ainda vive cercada de silêncio, e esse silêncio tem um custo alto. Quando uma mulher acredita que precisa sofrer calada, ela não busca cuidado. Ela simplesmente vai abrindo mão, aos poucos, de partes da própria vida.

Nenhuma mulher deveria deixar de rir com vontade por medo de um escape. Não deveria deixar de malhar, de viajar, de viver o próprio corpo com leveza. Isso não é frescura, não é fraqueza, não é falta de cuidado. É uma condição de saúde. Merece atenção, merece diagnóstico, merece tratamento. E merece, acima de tudo, ser falada sem vergonha.

 

Bruna Ghetti- ginecologista, especialista em mulheres 40+

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