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CUIABÁ

Raul Fortes

O Divino e a alma de Cuiabá

Publicado em

Existe algo profundamente bonito na Festa do Senhor Divino em Cuiabá. Certamente, porque ela vai além de uma celebração religiosa. Ela é memória, herança, identidade e permanência.
Neste fim de semana, mais uma vez, a cidade viveu seus festejos como quem reencontra a própria alma. Entre rezas, bandeiras vermelhas, procissões, música, encontros de família e mesas fartas, Cuiabá reafirmou aquilo que há séculos sustenta sua cultura popular. A capacidade de transformar fé em convivência e tradição em afeto coletivo.

A Festa do Divino em Cuiabá carrega uma história multissecular. Há registros de sua realização desde 1813, ainda nos primórdios do Brasil Império, fruto da devoção trazida pelos colonizadores portugueses e paulistas que ocuparam esta região. Mas sua origem é ainda mais antiga. Nasce em Portugal, no século XIV, ligada à Rainha Santa Isabel, que teria prometido entregar sua coroa ao Espírito Santo e construir uma igreja em nome da paz, diante do risco de uma guerra civil envolvendo a própria família real portuguesa.

A promessa teria sido alcançada. A paz veio. E, junto dela, nasceu uma das mais belas tradições da religiosidade popular lusitana, posteriormente trazida ao Brasil.

Em Cuiabá, essa devoção ganhou sotaque, cheiro, música e jeito próprios. Passou pelas antigas cavalarias, pelas touradas do Campo D’Ourique, atravessou gerações e chegou à contemporaneidade mantendo símbolos que seguem emocionando os fiéis. A Bandeira vermelha do Senhor Divino percorrendo as ruas da cidade. A chamada “esmola do Senhor Divino”. O pão bento guardado nas cozinhas como símbolo de fartura. A coroa, o cetro, as medalhas distribuídas aos devotos. Tudo isso segue existindo como marcas de uma fé que se mantém viva.

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Provavelmente um dos momentos mais bonitos desta edição tenha sido justamente a procissão de encerramento, realizada ontem, domingo. Uma caminhada de fé, emoção e pertencimento que tomou as ruas da cidade e reafirmou a força dessa tradição centenária. Era possível perceber, nos rostos, nos cantos e nos gestos, algo que vai muito além da religiosidade. Uma espécie de reencontro coletivo com a própria história de Cuiabá.

As já tradicionais barracas das famílias cuiabanas também seguem sendo parte essencial dessa celebração. Gerações inteiras mantendo receitas, sabores e encontros que ajudam a preservar não apenas a culinária típica, mas a memória afetiva da cidade. A festa também passa pelo bolo, pelo caldo, pela conversa demorada entre conhecidos e pelo sentimento de comunidade que nasce em volta das mesas.

Mas talvez uma das maiores forças dessa festa esteja justamente em sua capacidade de unir mundos. A Catedral lotada convive com a praça cheia. A oração encontra a música. O sagrado abraça a cultura popular.

E foi bonito perceber isso também nos shows deste ano. Ver artistas como Almir Sater participando, Pescuma, Henrique e Claudinho e a banda É Bem Mato Grosso presentes outra vez e encerrando os festejos é perceber como a música de toda uma região também ajuda a sustentar nossa identidade coletiva. O encerramento musical da festa pareceu traduzir exatamente aquilo que Cuiabá é. Uma mistura de fé, regionalidade, encontro e pertencimento.

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Também merece reconhecimento a condução dos festejos deste ano pelo imperador Leonardo Oliveira e pela imperatriz Carmen Cenira, que estiveram à frente da Festa do Senhor Divino 2026 mantendo viva uma das tradições mais importantes da cultura cuiabana. Um abraço especial ao querido e devoto amigo Luciano e ao irmão Pescuma, juiz de vara dos festejos deste ano, figura tão importante para a música e para a cultura de Mato Grosso.

Para mim, a Festa do Divino continua sendo um dos retratos mais sensíveis da cuiabania. Porque ela consegue reunir diferentes gerações em torno de algo maior que todos nós. Crianças acompanhando a bandeira, idosos emocionados cantando, jovens ocupando os espaços da festa. Tudo coexistindo. Tudo pertencendo.

Em tempos tão acelerados, preservar tradições como essa é também preservar uma maneira de olhar para o outro, para a cidade e para a própria vida.

No último verso do hino do Senhor Divino, a tradição canta que “o Divino Espírito Santo é de Cuiabá”. Talvez seja justamente isso que emocione tanto. A sensação de que, durante esses festejos, Cuiabá volta a ser casa de si mesma.

E viva o Senhor Divino!

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Da gestão ao carisma: o obstáculo de Pivetta

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Otaviano Pivetta talvez esteja entrando na fase mais delicada de uma pré-campanha majoritária: transformar reconhecimento em desejo popular.

Hoje, o vice-governador possui atributos sólidos. Tem experiência administrativa, ligação direta com o setor produtivo, respaldo empresarial e carrega parte importante da aprovação do governo Mauro Mendes. Isso lhe garante um piso eleitoral competitivo e uma imagem consolidada junto ao eleitor mais técnico e racional.

Mas eleições para governador raramente são decididas apenas pela lógica da gestão.

É justamente aí que surge o principal desafio da sua comunicação.

Pesquisas recentes indicam que Pivetta cresce bem em determinados segmentos, mas ainda enfrenta dificuldades para romper uma barreira mais emocional e popular. Em outras palavras: o eleitor conhece Pivetta, mas ainda não está claro se o deseja como protagonista do próximo ciclo político de Mato Grosso.

E parte da estratégia adotada até aqui parece aumentar essa dúvida.

A tentativa de “humanização” através de trends, dancinhas e fórmulas típicas de TikTok soa artificial para um perfil que sempre funcionou mais como gestor de bastidor do que como personagem popular. O excesso de marketing performático pode acabar afastando justamente a autenticidade que o eleitor espera dele.

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Outro ponto que ainda gera questionamentos é a aproximação política com o prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini. A parceria pode representar capilaridade e conexão com um público mais popular, mas também pode transferir desgaste e ampliar resistências em setores mais moderados.

No fundo, a questão central parece simples:
Pivetta precisará decidir se quer apenas continuar um governo ou simbolizar um novo momento para Mato Grosso.

Porque gestão gera credibilidade.
Mas liderança majoritária exige conexão, identidade e pertencimento.

E essa talvez seja a verdadeira eleição que sua comunicação ainda precisa vencer.

 

João Abilio
Publicitário mato-grossense

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