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CUIABÁ

Lucas Alves

Estiagem começa antes da falta de chuva

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Quem chega a Cuiabá logo descobre que a fama da cidade é verdadeira: o calor faz parte da identidade cuiabana. E não falo apenas do acolhimento caloroso de quem vive aqui. Entre os meses de julho e setembro, o calor deixa de ser apenas uma característica da hospitalidade local para se tornar também um dos principais desafios da cidade. É quando a estiagem se intensifica, a umidade do ar diminui e a ausência de chuvas exige ainda mais atenção.

Sou manauara. Cresci em uma cidade cercada por rios, onde a chuva faz parte da paisagem durante boa parte do ano. Cuiabá me apresentou uma realidade diferente. Aqui, o período seco traz desafios que vão além do calor: durante meses, as chuvas aparecem com menor frequência, a umidade do ar atinge níveis críticos e o consumo de água aumenta justamente quando a natureza oferece menos disponibilidade.

Na Águas Cuiabá, a estiagem não começa quando a chuva termina. Ela exige preparação antecipada, com investimentos, planejamento e monitoramento permanente do sistema de abastecimento. Neste ano, estão sendo investidos mais de R$ 28 milhões em ações de melhoria e modernização da infraestrutura. Entre as iniciativas estão mais de 100 ações na região central, como instalação de registros, reforços de rede e renovação de estruturas importantes para a operação do sistema.
Também estão em andamento a ampliação dos reservatórios Bom Clima e Novo Mato Grosso, com investimento de quase R$ 5,9 milhões. Juntas, as estruturas acrescentam 5,2 milhões de litros à capacidade de reservação, fortalecendo o abastecimento para mais de 130 mil moradores.

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A modernização inclui ainda a instalação de sete válvulas modulantes de vazão, que ampliam o controle da distribuição de água, e mais de 100 ventosas automáticas, equipamentos que ajudam a reduzir ocorrências de rompimentos nas redes. Somam-se a essas ações a substituição de aproximadamente 20 quilômetros de tubulações, contribuindo para um sistema mais eficiente e seguro.

Essa preparação é ainda mais importante diante do cenário climático observado em 2026. O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) tem alertado para temperaturas acima da média e baixa umidade relativa do ar durante o período seco na região Centro-Oeste. Cenários como esse reforçam a importância do acompanhamento constante dos mananciais e do comportamento do consumo.

Por isso, a Águas Cuiabá mantém um Comitê Interno de Estiagem, formado por profissionais de diferentes áreas, que acompanha diariamente indicadores operacionais, níveis dos mananciais, desempenho das estações de tratamento, reservatórios e consumo da população. Esse monitoramento permite antecipar decisões e realizar ações preventivas para preservar a regularidade do abastecimento.

O planejamento também envolve manutenção de equipamentos, acompanhamento da rede de distribuição, redução de perdas, combate a vazamentos e reforço da estrutura para atendimentos emergenciais.
Mas nenhuma infraestrutura, por mais moderna que seja, substitui a participação da sociedade. Garantir água de qualidade é uma responsabilidade compartilhada. Cabe à concessionária investir continuamente e operar com eficiência. À população, utilizar esse recurso de forma consciente, evitando desperdícios no dia a dia.

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Vivemos um período em que os eventos climáticos extremos se tornam mais frequentes e exigem adaptação. O saneamento faz parte dessa resposta. Investir em infraestrutura, ampliar a capacidade dos sistemas e fortalecer a cultura do consumo consciente são ações que caminham juntas. A água é um recurso essencial à vida e ao desenvolvimento da nossa cidade. Preservá-la é um compromisso de todos.

Lucas Alves é diretor operacional da Águas Cuiabá

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Quando uma palavra pública fere muito além da política

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Há frases que ultrapassam a disputa eleitoral. Não porque definam uma eleição, mas porque revelam o cuidado ou a falta dele com que determinados agentes políticos tratam temas profundamente sensíveis.

Foi o que ocorreu durante a convenção estadual do PL em Mato Grosso, quando o presidente da legenda, Ananias Filho, nesta última quarta-feira, 22 de julho, ao defender o empenho do partido em uma eleição passada, afirmou que “Deus deu uma mão e levou uns lá para cima”, ao fazer referência a deputada federal Amália Barros, que faleceu em maio de 2024, aos 39 anos, após complicações de saúde. A vaga acabou sendo ocupada pelo primeiro suplente, Nelson Barbudo.

É possível que a intenção da fala tenha sido apenas exaltar a mobilização eleitoral do partido. Mas, na política, intenção e efeito nem sempre caminham juntos.

Prova inconteste de que palavras importam, ainda mais quando pronunciadas por quem preside um partido. Pois políticos precisam medir declarações e entender o peso da palavra pública. Sobretudo, o impacto que pode causar uma declaração malfeita. Assim, dirigentes partidários e líderes têm o dever de manter o decoro e prestar contas por erros verbais. Mesmo em situações que supostamente não tenha existido a intenção.

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Ao associar uma morte precoce à dinâmica eleitoral e à vontade divina, a declaração provocou desconforto e indignação entre mulheres que atuam na política e entre movimentos que acompanham o debate sobre participação feminina nos espaços de poder.

A questão central não é discutir a fé de ninguém. Também não é transformar um deslize verbal em uma sentença definitiva sobre quem o pronunciou.

O ponto é outro. É compreender que mulheres que conseguem romper barreiras históricas para ocupar cargos de representação carregam trajetórias marcadas por desafios que vão muito além das urnas.

A política brasileira ainda convive com baixa representação feminina, episódios recorrentes de violência política de gênero e dificuldades concretas para que mulheres permaneçam em posições de liderança. Nesse contexto, qualquer manifestação pública que possa sugerir naturalização, banalização ou instrumentalização da morte de uma parlamentar inevitavelmente produz repercussões que extrapolam o ambiente partidário.

Talvez por isso tenha causado surpresa a ausência de uma reação pública mais imediata de outras lideranças presentes ao evento, especialmente daqueles que conviveram politicamente com Amália Barros ou que hoje buscam ocupar o espaço político construído por ela.

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Líderes políticos não são cobrados apenas pelas decisões que tomam. São cobrados, sobretudo, pelas palavras que escolhem. Principalmente, aquelas que possuem um peso que não desaparecem quando terminam as entrevistas coletivas.

Elas permanecem. Podem inspirar. Podem unir. Podem reparar. Mas também podem ferir.

Em tempos de polarização, talvez uma das maiores demonstrações de grandeza política não seja justificar uma frase infeliz, mas reconhecer que determinadas palavras jamais deveriam ter sido pronunciadas.

E pedir desculpas não diminui uma liderança. Ao contrário, em muitos casos, é justamente o que a fortalece.

Marisa Batalha é jornalista e faz parte do coletivo Mulheres MT Até Quando?

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