O vereador Rafael Ranalli (PL) classificou como uma “vergonha” a presença de uma marca ligada ao mercado adulto no uniforme do Corinthians. Presidente da Comissão dos Direitos da Criança e do Adolescente da Câmara de Cuiabá, o parlamentar criticou o contrato milionário firmado entre o clube paulista e a Fatal Fans, plataforma de conteúdo adulto por assinatura.
A manifestação ocorreu durante o grande expediente da Câmara Municipal desta quinta-feira (16), quando os vereadores discutiam medidas de proteção à infância após a morte de uma bebê de 10 meses em Fortaleza (CE), vítima de violência sexual.
Ao pedir a palavra, Ranalli questionou o vereador Kássio Coelho (Podemos) sobre como avançar na proteção de crianças e mulheres enquanto instituições esportivas promovem marcas de serviços destinados exclusivamente ao público adulto.
“Já que você trouxe essa pauta nacional de proteção das crianças, eu pergunto, Kássio: como é que vamos proteger as mulheres se o segundo maior clube de futebol do Brasil estampa na camiseta uma marca ligada a esse mercado?”, questionou.
O vereador associou a patrocinadora ao mercado de prostituição e afirmou enxergar uma contradição entre o contrato firmado pelo Corinthians e os discursos públicos de combate à misoginia e de proteção às mulheres.
“Como é que o Corinthians me estampa uma casa de prostituição na camiseta? Depois vem ‘salvem as mulheres’, projeto de misoginia, não sei o quê. Não dá para entender esse país. O segundo maior clube de futebol do Brasil estampa uma empresa ligada a esse mercado na camiseta. É brincadeira”, disparou.
A Fatal Fans pertence à Atlas Technologies, grupo empresarial que também controla a Fatal Model, plataforma de anúncios de acompanhantes. Apesar da ligação societária e da atuação das duas marcas no mercado adulto, elas oferecem serviços diferentes. A Fatal Fans comercializa conteúdo por assinatura, enquanto a Fatal Model veicula anúncios de acompanhantes.
Ranalli também afirmou que clubes, jogadores e outras personalidades do esporte precisam avaliar a influência que exercem sobre crianças, adolescentes e milhões de torcedores. Para ele, a responsabilidade dessas figuras públicas ultrapassa os resultados obtidos dentro de campo.
“Aí depois vêm criticar político, sendo que a gente sabe que quem forma opinião muitas vezes são os esportistas”, declarou.
Durante o pronunciamento, o vereador citou nominalmente o atacante Vini Jr., do Real Madrid e da Seleção Brasileira, ao ampliar a crítica para a publicidade de empresas de apostas esportivas.
“Esses dias eu estava criticando, não sei se pode criticar porque vão me prender, porque ninguém pode falar mal do Vini Jr., porque ele usa algumas bandeiras para se proteger de todo mundo. Ele faz propaganda de bet”, afirmou.
Vini Jr. é embaixador da Betnacional desde 2022 e possui contrato publicitário com a empresa de apostas até 2027. Na avaliação de Ranalli, a participação de atletas de projeção internacional nessas campanhas ajuda a popularizar as plataformas e pode atingir pessoas economicamente vulneráveis.
“Prejudica pessoas que gastam todo o salário e enfrentam consequências gravíssimas. Quem possui essa projeção precisa entender o peso da própria imagem”, criticou.
Policial federal, Ranalli argumentou que instituições e esportistas com milhões de seguidores não podem analisar contratos publicitários considerando somente o retorno financeiro. Para ele, também é necessário avaliar a mensagem transmitida às famílias e ao público mais jovem.
O parlamentar ressaltou que sua manifestação não representa um ataque ao Corinthians enquanto instituição nem aos torcedores do clube. Ele lembrou, inclusive, que sua mãe é corintiana.
“Todo mundo aqui torce para algum time. Acredito que o Corinthians tenha em Cuiabá a segunda ou a terceira maior torcida. Não tenho nada contra o Corinthians enquanto instituição. Minha mãe é corintiana, inclusive. Mas é uma vergonha”, disse.
O contrato entre Corinthians e Fatal Fans prevê o pagamento de R$ 22 milhões até dezembro de 2027. Caso a parceria seja prorrogada por mais uma temporada, o valor total poderá alcançar aproximadamente R$ 31 milhões.
O acordo contempla financeiramente as equipes de futebol masculino e feminino, além do futsal e do basquete. Conforme informações divulgadas sobre a parceria, a exposição da marca ocorrerá de formas diferentes em cada modalidade.
Para Ranalli, a diferença entre as plataformas do grupo e a destinação dos recursos não elimina o debate sobre a responsabilidade social do clube, especialmente por sua influência entre crianças e adolescentes.
“Só quero deixar registrado o nosso repúdio e a nossa crítica contra esse tipo de publicidade. Não dá para fechar os olhos”, concluiu.