Todo segundo domingo de agosto, o Brasil celebra o Dia dos Pais. Entre homenagens, lembranças e encontros familiares, a data também permite pensar sobre uma das relações mais antigas da humanidade. Aquilo que um pai deixa para um filho.
Nem toda herança cabe em documentos, bens ou fotografias guardadas. Algumas atravessam o tempo na forma de uma canção, de um livro, de uma maneira de contar histórias ou simplesmente de um jeito particular de enxergar o mundo.
Na arte, são muitos os exemplos.
Johann Sebastian Bach, um dos nomes fundamentais da história da música ocidental, foi pai de vinte filhos. Alguns deles também se tornaram compositores importantes, entre eles Carl Philipp Emanuel Bach e Johann Christian Bach. Séculos depois, a família Bach permanece como um dos exemplos mais impressionantes de uma tradição musical atravessando gerações.
No Brasil, poucos encontros entre pai e filho foram tão simbólicos quanto o de Luiz Gonzaga e Gonzaguinha.
De um lado, o Rei do Baião, responsável por apresentar ao Brasil urbano os sons, as histórias e a identidade musical do Nordeste. Do outro, Gonzaguinha, compositor de personalidade própria, autor de canções que falaram de amor, política, esperança e das inquietações de seu tempo. Eram diferentes, tiveram uma relação complexa, mas encontraram também na música um elo definitivo.
Dorival Caymmi construiu outra dessas famílias em que a arte parece correr junto com o sangue. Nana, Dori e Danilo Caymmi seguiram caminhos próprios, carregando consigo algo daquele universo musical criado pelo pai, feito de Bahia, mar, personagens, melodias e histórias.
Gilberto Gil também viu a música atravessar sua família. Entre seus filhos, Preta Gil construiu sua própria trajetória artística e compartilhou com o pai uma relação pública de enorme afeto. Uma história que tantas vezes nos mostrou que, antes dos palcos, dos discos e da fama, existem simplesmente um pai e uma filha.
A literatura brasileira também guarda encontros assim. Érico Verissimo se tornou um dos grandes escritores brasileiros do século XX. Seu filho, Luis Fernando Verissimo, escolheu igualmente as palavras, mas encontrou nelas seu próprio caminho, marcado pelo humor, pela crônica e por uma maneira absolutamente particular de observar o cotidiano.
No cinema, Francis Ford Coppola dirigiu algumas das obras mais importantes do cinema norte-americano. Décadas depois, sua filha Sofia Coppola construiria uma filmografia própria, com linguagem e identidade muito diferentes das do pai.
E é justamente aí que encontro uma das coisas mais bonitas da relação entre pais, filhos e arte.
Herança não precisa significar repetição.
Um filho pode receber do pai uma referência e transformá-la completamente. Pode escolher a mesma profissão ou seguir em outra direção. Pode cantar outra música, escrever outra história, escolher outras cores, desenhar outros caminhos.
Ser pai também é preparar alguém para encontrar a própria voz.
A música que ouvimos dentro de casa, o primeiro filme que assistimos juntos, o livro indicado, o instrumento apresentado, a história contada, a ida ao teatro, ao cinema, a uma exposição ou a um show também fazem parte da nossa formação cultural.
Muitas vezes, nosso primeiro contato com a arte não acontece numa escola, num museu ou numa sala de concertos. Acontece dentro de casa.
Escrevo sobre tudo isso também do lugar que mais me emociona nesta data. Sou pai. Meu filho tem 17 anos e, até aqui, não escolheu a música como caminho. Olha para a arquitetura, outra forma fascinante de criação, arte e transformação. E eu acompanho isso com alegria, respeito e admiração.
Nunca desejei que ele repetisse os meus passos. Desejo que encontre os dele.
Ser pai é uma das maiores felicidades da minha vida. É cuidar, preservar, orientar, aprender e, aos poucos, compreender que aquele menino que seguramos pela mão precisa ganhar o mundo com as próprias escolhas.
A arte possui esse extraordinário poder de atravessar o tempo. A paternidade também.
Neste Dia dos Pais, meu abraço a todos aqueles que exercem essa missão com presença, amor, responsabilidade e cuidado. Aos que ensinam seus filhos a cantar e aos que aprendem com eles novas canções. Aos que deixam caminhos e aos que têm a grandeza de permitir que seus filhos construam outros.
No fim, ser pai é participar da mais bonita obra de arte que a vida pode nos permitir construir. Uma obra que cuidamos, acompanhamos e ajudamos a formar, sabendo que, um dia, ela seguirá criando seus próprios caminhos.
Um filho livre para escrever a própria história.
De pai pra filho.