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CUIABÁ

Raul Fortes

A cultura dos encontros

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No último fim de semana, tive a alegria de participar de uma festa organizada por amigos da Cohab Nova, aqui em Cuiabá. E, enquanto a música seguia seu caminho natural entre diferentes ritmos, gerações e histórias, algo me chamou a atenção. Não era apenas uma festa.

Era um encontro de vidas.

Ali estavam amigos de infância, famílias, lembranças compartilhadas e uma sensação rara de pertencimento. Pessoas que, em muitos casos, cresceram juntas, dividiram ruas, sonhos, alegrias e desafios. E que, por algumas horas, voltaram a ocupar o mesmo espaço, como se o tempo tivesse decidido caminhar mais devagar.

E havia algo mais. Algo que não estava apenas nas músicas ou nas lembranças. Estava na forma de falar. No sotaque inconfundível da baixada cuiabana, preservado entre uma conversa e outra, entre um cumprimento e uma recordação. Expressões que atravessam gerações e carregam consigo muito mais do que palavras, carregam modos de viver, de enxergar o mundo e de pertencer a um lugar.

A música foi a grande anfitriã da noite.

Ney Aroeira, com sua voz e seu violão, conduziu uma verdadeira viagem musical, passeando por diferentes épocas e estilos, despertando memórias e emoções em cada canção. Em outro momento incrível, musicalmente o mais especial da noite, Pescuma e Henrique brindaram o público com uma apresentação que foi muito além do entretenimento. Foi uma celebração da música popular brasileira produzida em Mato Grosso e da identidade cultural mato-grossense, reafirmando o valor das nossas raízes e das histórias que carregamos.

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E então veio a pista.

Sob o comando do DJ P.Taques, o que se viu foi algo difícil de descrever. Uma comunhão coletiva. Pessoas cantando a plenos pulmões, sorrindo, abraçando-se, dançando sem qualquer preocupação além de viver aquele instante. Jovens, adultos e veteranos compartilhando o mesmo repertório afetivo, transformando músicas em pontes e lembranças em celebração.

Confesso que poucas vezes presenciei uma energia tão intensa.

Certamente porque não se tratava apenas da música. Nem apenas da dança. O que estava em movimento era algo maior. O afeto, a amizade. A alegria genuína de estar junto. O prazer de reencontrar pessoas que ajudaram a construir nossa trajetória. A felicidade de perceber que algumas conexões permanecem vivas, independentemente do tempo.

Vivemos uma época em que estamos permanentemente conectados pelas telas e, paradoxalmente, cada vez mais distantes dos encontros reais. Por isso, experiências como essa nos lembram algo fundamental. A cultura também acontece quando as pessoas se reúnem para celebrar a própria existência.

Ela está nos palcos, nos teatros e nos museus, mas também está nas festas de bairro, nas rodas de conversa, nos encontros de amigos e nas canções cantadas em coro por dezenas de vozes que, por alguns minutos, parecem formar uma só.

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Provavelmente, a grande beleza daquela noite foi justamente essa. A compreensão de que a arte não existe apenas para ser assistida. Ela existe para aproximar. Para criar memórias. Para fortalecer vínculos. Para nos lembrar quem somos e de onde viemos.

“Haja o que hajar”. Algumas coisas continuam valendo a pena. Sentar à mesma mesa, dividir histórias, cantar e dançar juntos e celebrar a vida.

Ao final, ficou a sensação de que a cultura dos encontros continua sendo uma das mais belas manifestações humanas. E que, enquanto houver música, dança, amizade e disposição para celebrar a vida, sempre haverá espaço para que novas histórias sejam escritas.

E algumas delas, como as dos amigos da Cohab Nova, felizmente serão inesquecíveis.

Texto dedicado a Paulo Taques, pela amizade e pelo convite, e aos amigos da Cohab Nova, pela generosidade de compartilhar suas histórias.

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O som da viola que atravessa o tempo

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Toda vez que a música sertaneja ocupa os grandes palcos do Brasil, eu me pergunto quantas pessoas ainda conseguem ouvir sua essência escondida por trás de tudo aquilo.

Ela está lá.

Mesmo quando os arranjos ganham bateria, guitarras, teclados e grandes produções. Mesmo quando as multidões cantam sucessos contemporâneos em estádios e arenas. Em algum lugar daquela canção ainda existe uma viola caipira contando a mesma história que começou há muitas décadas.

A música sertaneja nasceu antes de se tornar indústria. Nasceu quando o Brasil ainda era contado pelas estradas de terra, pelas comitivas, pelas pequenas propriedades rurais e pelos encontros em volta de uma roda de música.

Foi nesse Brasil que pioneiros como Cornélio Pires perceberam que existia uma cultura inteira esperando para ser registrada. Vieram então as modas de viola, os causos cantados, as histórias de amor, saudade, trabalho e fé.

Mais tarde surgiriam gigantes como Tião Carreiro e Pardinho. Com eles, a viola encontrou uma nova linguagem e um novo protagonismo. Não por acaso, “Pagode em Brasília” se transformou em um marco da música brasileira. Ali, a viola não era apenas acompanhamento. Era personagem principal.

A estrada continuou.

Vieram Milionário & José Rico, trazendo uma interpretação intensa e dramática que conquistou o país. Depois, Chitãozinho & Xororó abriram uma nova porteira para o gênero. O sertanejo passou a ocupar rádios, programas de televisão e os maiores públicos da música nacional.

Logo depois, Zezé Di Camargo & Luciano mostrariam que a música sertaneja ainda tinha muitos caminhos a percorrer. Suas vozes levaram para milhões de brasileiros histórias de amor, superação e família, ampliando ainda mais a presença do gênero no imaginário popular.

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Foi nessa época que uma canção atravessou gerações e se tornou praticamente um patrimônio afetivo brasileiro. Bastaram poucos versos para que milhões de pessoas se reconhecessem nela. “Evidências” deixou de ser apenas uma música para se transformar em memória coletiva.

Mas a viola e o espírito sertanejo continuavam ali.

Eles reapareceriam com força na obra de Almir Sater e Renato Teixeira. Em suas mãos, a música sertaneja voltava a conversar diretamente com a paisagem, com os rios, com os campos e com o tempo. Canções como “Tocando em Frente” lembraram ao país que a simplicidade também pode ser profunda.

A maior força da música sertaneja está justamente aí. Em sua capacidade de se transformar sem esquecer completamente de onde veio.

Em Mato Grosso, essa história também segue sendo escrita. Um estado onde a cultura rural, as comitivas, a vida no campo e a tradição da viola fazem parte da identidade de milhares de pessoas.

Por aqui, a viola encontrou intérpretes, pesquisadores e defensores apaixonados. Nomes como os eternos Hélio Pimentel, e Claudinho, João Ormond e Eduardo Santos ajudaram a construir uma trajetória que mantém viva a tradição da música sertaneja e da viola caipira em nosso estado. Artistas que compreenderam que preservar não significa permanecer parado no tempo, mas seguir fazendo a cultura caminhar.

Essa mesma tradição encontra continuidade em artistas da nova geração. Exemplos como Bruna Viola e Douglas Cabral demonstram que a viola segue encontrando novos caminhos, novos públicos e novas formas de dialogar com o presente sem abandonar suas raízes.

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Aliás, foi justamente uma conversa com o Douglas Cabral, no programa Palco CBN, que inspirou a reflexão desta coluna. Ao falar sobre música, carreira e tradição, ficou ainda mais evidente que a viola continua sendo muito mais do que um instrumento. Ela é um elo entre gerações, uma forma de contar histórias e um dos sons mais autênticos da identidade brasileira.

Essencialmente a música sertaneja nunca foi apenas um gênero musical.

Ela é uma narrativa sobre o Brasil.

Uma narrativa que começou com a viola contando histórias simples e que, geração após geração, continua encontrando novas vozes para seguir seu caminho.

Quando uma viola toca, ela não faz soar apenas uma melodia. Ela convoca memórias, paisagens, modos de vida e personagens que ajudaram a construir a identidade de um país inteiro.

Poderíamos falar do cidadão sertanejo, de sua relação com a terra, com os animais, com os rios, com a fé e com o trabalho. Poderíamos falar das comitivas, dos peões, das famílias rurais e de tantos homens e mulheres que ajudaram a moldar uma cultura que segue viva de geração em geração.

Poderíamos falar de Mato Grosso, onde a tradição sertaneja encontra abrigo nas fazendas, nas cavalgadas, nos encontros de viola e na memória de quem aprendeu a viver olhando para o horizonte.

Mas esse é outro causo.

Por hoje, basta ouvir a viola.

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